Sala de Leitura Monteiro Lobato

"Um país se faz de homens e livros"

Esconde-esconde no Sitio do Picapau Amarelo




Postado por E. M. Oswaldo Aranha
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E. M. Oswaldo Aranha

Localização-Praça Carlos Toledo, 29 Rocha Miranda


Atende a alunos educação infantil ao 5º ano em dois turnos, turma de aceleração, aulas de educação física, inglês, sala de recursos, aulas de reforço. Funciona em dois turnos.

Espaço Físico - 10 salas de aula, 4 adequadas a Educação Infantil,banheiro, Quadra Coberta, Parquinho, Sala de Leitura, Auditório, Laboratório de Informática, Sala de Atividades.

Trabalha orientações curriculares através de Projetos.


Biografia de Monteiro Lobato:

Monteiro Lobato (1882-1948) foi um escritor brasileiro. "O Sitio do Picapau Amarelo" é uma de suas obras de maior destaque na literatura infantil. Foi um dos primeiros autores de literatura infantil em nosso país e em toda América Latina. Tornou-se editor, criando a "Editora Monteiro Lobato" e mais tarde a "Companhia Editora Nacional". Metade de suas obras é formada de literatura infantil.

Como escritor literário, Lobato destacou-se no gênero "conto". O universo retratado, em geral são os vilarejos decadentes e as populações do Vale do Parnaíba, quando da crise do plantio do café. Em seu livro "Urupês", que foi sua estreia na literatura, Lobato criou a figura do "Jeca Tatu", símbolo do caipira brasileiro. As histórias do "Sítio do Picapau Amarelo", e seus habitantes, Emília, Dona Benta, Pedrinho, Tia Anastácia, Narizinho, Rabicó e tantos outros, misturam a realidade e a fantasia usando uma linguagem coloquial e acessível.

O livro "Caçadas de Pedrinho", publicado em 1933, que faz parte do Programa Nacional Biblioteca na Escola, do Ministério da Educação, está sendo questionado pelo movimento negro, por conter "elementos racistas". O livro relata a caçada a uma onça que está rondando o sítio. "É guerra e das boas, não vai escapar ninguém, nem tia Anastácia, que tem cara preta".



Obras de Monteiro Lobato

Idéias de Jeca Tatu, conto, 1918
Urupês, conto, 1918
Cidades Mortas, conto, 1920
Negrinha, conto, 1920
O Saci, literatura infantil, 1921
Fábulas de Narizinho, literatura infantil, 1921
Narizinho Arrebitado, literatura infantil, 1921
O Marquês de Rabicó, literatura infantil, 1922
O Macaco que se fez Homem, romance, 1923
Mundo da Lua, romance, 1923
Caçadas de Hans Staden, literatura infantil, 1927
Peter Pan, literatura infantil, 1930
Reinações de Narizinho, literatura infantil, 1931
Viagem ao Céu, literatura infantil, 1931
Caçadas de Pedrinho, 1933
Emília no País da Gramática, literatura infantil, 1934
História das Invenções, literatura infantil, 1935
Memórias da Emília, literatura infantil, 1936
Histórias de Tia Nastácia, literatura infantil, 1937
Serões de Dona Benta, literatura infantil, 1937
O Picapau Amarelo, literatura infantil, 1939.



Fábulas de Monteiro Lobato

O Cavalo e o Burro
A Coruja e a Águia
O Lobo e o Cordeiro
O Corvo e o Pavão
A Formiga Má
A Garça Velha
As Duas Cachorras
O Jaboti e a Peúva
O Macaco e o Coelho
O Rabo do Macaco
Os Dois Burrinhos
Os Dois Ladrões
A caçada da Onça

Sitio do Pica-pau Amarelo

Marmelada de banana, bananada de goiaba
Goiabada de marmelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Sítio do Pica-Pau amarelo

Boneca de pano é gente, sabugo de milho é gente
O sol nascente é tão belo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Sítio do Pica-Pau amarelo

Rios de prata, pirata
Vôo sideral na mata, universo paralelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Sítio do Pica-Pau amarelo

No país da fantasia, num estado de euforia
Cidade polichinelo
Sítio do Pica-Pau amarelo

Giberto Gil

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Nem todo problema de leitura e escrita é dislexia

Ana Cássia Maturano

Alguns quadros de doenças mentais são bem definidos outros não. Vários aspectos influenciam na aprendizagem.

Fazer um diagnóstico em psicologia ou psicopedagogia não é algo simples. O modelo da medicina, que após identificar e nomear a doença se administra o tratamento específico, é mais difícil de aplicar nessas áreas.

Como a expectativa ao se procurar um profissional da saúde é saber o que se tem, muitas pessoas entram em um consultório psicológico esperando obter uma resposta precisa. Algumas coisas podemos nomear e encontrar uma descrição na Classificação Internacional de Doenças (CID) ou mais especificamente no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM).

Nem tudo, porém, é possível quantificar ou dar um nome catalogado, que possa explicar o quadro de determinada pessoa e dar um direcionamento exato para seu tratamento.

Alguns quadros são bem definidos, como a depressão, por exemplo. Mesmo assim, para se fechar um diagnóstico em saúde mental pode se levar um tempo, até para o médico psiquiatra. Há muitas variáveis em jogo. Às vezes, numa mesma pessoa, encontram-se vários transtornos envolvidos.

Na área da aprendizagem isso também ocorre. Um dos quadros mais polêmicos é o de dislexia, que é bastante questionado. Toda vez que se procura por esse transtorno na literatura, o que se encontra (havendo concordância) é que ele se refere a um distúrbio da linguagem, envolvendo principalmente a habilidade leitora. Mais especificamente na decodificação de palavras isoladas.

Tanto no DSM como no CID, em suas últimas edições, ele é apenas citado dentro do transtorno de leitura. Há muitos casos de dificuldade de leitura. Até um tempo atrás qualquer problema dessa natureza (ou mesmo de escrita – habilidades que estão sempre de mãos dadas) era diagnosticado como dislexia. Os pais de crianças com dificuldades escolares chegavam para os psicopedagogos com o diagnóstico pronto, muitas vezes dado pelas escolas e reforçado pelos profissionais.

Se por um lado o estabelecimento de um quadro ajuda no tratamento, por outro pode cegar e apenas estigmatizar a pessoa em questão. Nem todo aquele que tem dificuldade na leitura e escrita é disléxico. Esse quadro é bem específico e de difícil diagnóstico.

Isso porque vários são os aspectos que influenciam os problemas de aprendizagem. Sejam eles de ordem física, social, pedagógica, emocional ou intelectual. Um quadro de dislexia, a princípio, descartaria qualquer outro problema que não a dificuldade de ler. Seria uma característica daquela pessoa, fazendo parte de sua constituição. Mesmo assim, alguém com dislexia, depois de anos de dificuldades, poderia vir a ter problemas emocionais, resultando em outras complicações na área pedagógica.

Por isso, dar um nome específico a um problema de lecto-escrita pode atrapalhar tanto o diagnóstico mais amplo, quando não podemos compreender a pessoa que ali se apresenta; quanto o tratamento, ao se enfocar aquilo que pode em verdade ser sintoma de alguma outra dificuldade da pessoa.

O mais adequado é um “diagnóstico” que privilegie fazer um entendimento do indivíduo em seus vários aspectos, considerando também seu ambiente social e escolar, que podem interferir em sua capacidade de aprender a linguagem escrita.

Às vezes, a conclusão que se chega nada mais é que uma inabilidade de lidar com grafofonemas, ou seja, estabelecer uma relação entre sons e letras, como um disléxico.

Em contrapartida, deve se tomar cuidado em não enxergar aquilo que está na frente dos olhos, como considerar uma dificuldade de ler como sintoma de algum conflito mal resolvido daquela pessoa na primeira infância. Ou seja, procurar algo que não existe.

Faz-se necessário ser muito criterioso para não cair nem no lugar comum, quando todo o problema de leitura é dislexia; e nem num enredo mirabolante, criando fantasmas.
Há poucas notícias sobre pessoas disléxicas. É muito provável que muitos casos que se encontram por aí receberam esse nome por terem dificuldades de leitura. Não dá para colocar tudo no mesmo pacote, como ocorre com o déficit de atenção e o transtorno de pânico (todo mundo conhece alguém que tem).

Os profissionais têm que deixar os modismos de lado e olhar para o ser humano real que se apresenta a eles. Daí, sim, eles poderão compreendê-los e ajudá-los de verdade.


(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)



Hábito de Leitura

Não é todo mundo que gosta de ler, mas a leitura é um forte instrumento para se manter informado das atualidades. Na idade escolar é comum professores passarem livros literários, como obrigatórios, uma exigência que consta na Lei de Diretrizes e Bases da Educação no Brasil.

Embora exigidas pela lei, as literaturas podem variar de acordo com o interesse dos professores e dos objetivos da instituição. Mas o mais comum é estarem voltadas para a literatura nacional, como forma de dar a oportunidade dos alunos conhecerem nossos escritores e, quem sabe, tornarem-se um deles.

Com o ingresso no ensino médio esse hábito deve fazer parte da rotina do estudante, a fim de se manter a par dos fatos do cotidiano, principais acontecimentos do mundo, pois as redações estão sempre voltadas para os mesmos, fazendo abordagens políticas voltadas para o meio ambiente, ecologia, guerras da atualidade, crise econômica, diversidade cultural, globalização, dentre vários outros.

O aluno que não se instrui com essas informações terá grandes dificuldades em enfrentar o vestibular, pois seu conhecimento se estreita apenas aos conteúdos escolares, perdendo uma visão mais ampla, mais crítica acerca dos problemas sociais, mundiais.

A leitura proporciona um aumento da capacidade de escrita, de argumentação, além de trazer um enriquecimento relevante no vocabulário do leitor, em sua forma de se expressar.

Existem várias espécies literárias para serem exploradas, como romances, históricos, atualidades, auto-ajuda, literatura nacional e internacional, ficção, suspense, dentre vários outros. Além desses, jornais e revistas de circulação nacional também são importantes, pois abre o conhecimento para os fatos da atualidade, tanto no âmbito nacional como internacional.

Procure estabelecer um horário de leitura, todos os dias, descubra qual o melhor para você se dedicar a essa atividade e siga com determinação. Algumas pessoas preferem ler pela manhã, outras no final da tarde, mas uma boa opção é tirar uma hora antes de dormir para isso. Além de relaxar, aos poucos o sono vai chegando, o que lhe proporcionará uma boa noite de sono.

Por Jussara de Barros
Graduada em Pedagogia
Equipe Brasil Escola



Brasil, um país de poucos leitores

A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada recentemente e encomendada ao Ibope pelo Instituto Pró-Livro, apresentou números reveladores: 77 milhões de brasileiros não leem livros regularmente. Abrangendo mais de 170 milhões de pessoas, ou seja, 92% da população, ela foi levantada em 311 municípios. Os números mostram que as mulheres leem mais que os homens e a Bíblia é a obra mais importante para os adultos.

Embora poucas pessoas saibam, no dia 29 de outubro é comemorado “O Dia Nacional do Livro”, data escolhida por representar a fundação da Biblioteca Nacional. Infelizmente, por não ser feriado, não é uma data lembrada, nem festejada, uma pena pois não podemos relegar a plano secundário a importância da leitura para a melhoria da cidadania e do desenvolvimento do país.

O aprimoramento da educação é fator essencial para resolver o problema da falta de leitura no Brasil, um país que tem 14 milhões de analfabetos entre 7 e 14 anos de idade. Aliás, é com a educação e somente com a educação que poderemos almejar uma Nação próspera e desenvolvida, dando plena capacidade de raciocínio e inteligência aos jovens. Na França, por exemplo, a média de leitura é de 10 livros por ano para cada cidadão, enquanto que aqui é de 4,7. É muito pouco para nos ombrearmos aos países mais desenvolvidos.

É um problema estrutural que deve ser enfrentado por todas as camadas da população. Levantamento do Sistema Nacional de Bibliotecas mostra que ainda restam 362 municípios que não possuem nenhuma biblioteca pública no Brasil (eram 1.300 em 2003). As regiões onde a situação é mais crítica são Norte e o Nordeste, onde, não por coincidência, os índices de leitura, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, também são os mais baixos do País. O estado em pior situação é o Piauí, onde nada menos do que 79 cidades não possuem esse serviço público essencial. Em seguida, aparecem a Bahia, com 67; a Paraíba, com 48; e o Rio Grande do Norte, com 28 cidades.

Os dados são preocupantes, mas parece ter sensibilizado as autoridades, pois representantes da Frente Parlamentar Mista da Leitura, reunidos no Congresso com o ministro da Cultura, Juca Ferreira, e dirigentes ligados ao meio literário discutiram soluções para o setor, durante o Seminário de Incentivo à Leitura no Brasil. Poderá ser criado, por decreto presidencial, o Fundo Pró-Leitura, uma forma de financiar as ações previstas no Plano Nacional do Livro e Leitura. O fundo seria uma contrapartida do setor livreiro, com aproximadamente 1% de seu faturamento anual e, se aprovado, pode gerar R$ 46 milhões por ano para as políticas oficiais de incentivo à leitura.

Agora resta aguardar que providências sejam tomadas e levadas a sério para que o Brasil deixe, também neste setor, de ocupar a triste estatística negativa dos últimos lugares, como acontece em outros segmentos da educação e da saúde. Esperamos as próximas pesquisas, torcendo para que os nossos números melhorem.

Benjamin Ribeiro da Silva
É Presidente do SIEEESP – Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo, e delegado da FENEP – Federação Nacional das Escolas Particulares.


Monteiro Lobato: o pai do faz-de-conta nacional

Texto Marion Frank

"Monteiro Lobato era do tipo inquieto, alguém que tinha interesse por tudo", diz Vladimir Sacchetta

Muito antes de se falar em ecologia, Monteiro Lobato chamava a atenção, em meados de 1910, denunciando as queimadas no interior paulista pelas páginas de um jornal. O autor de Reinações de Narizinho queria um Brasil forte, justo - e, ao longo da vida (1882-1948), defendeu a prospecção do petróleo, a implantação de medidas sanitaristas ou a causa que entendia necessária para o progresso do País. Conseguiu irritar governos e interesses estrangeiros, sendo preso mais de uma vez. Um polemista, em síntese.

Lobato amava o Brasil - e amava demais as crianças. A ponto de ter produzido, com prosa fácil e imaginação ilimitada, dezenas de histórias ambientadas em um universo particular, o Sítio do Picapau Amarelo - é considerado o criador da literatura infanto-juvenil brasileira. "Lobato é o nosso La Fontaine, o pai do faz-de-conta nacional", define Vladimir Sacchetta que escreveu, ao lado de Carmen Lucia de Azevedo e Marcia Camargos, "Monteiro Lobato, Furacão na Botocúndia" - espécie de Bíblia sobre vida e obra do escritor nascido em Taubaté (SP). "Ser ‘lobatólogo’ é uma militância", admite. "E o Brasil tem de se orgulhar de Lobato."

Vladimir Sacchetta desafia
quem consiga encontrar uma criança que não esteja de algum modo familiarizada com a Emília, o Pedrinho, a Narizinho ou outro morador do sítio. "São personagens que já pertencem ao nosso imaginário infantil", diz. Também tem certeza de que o interesse da garotada por essas histórias continua incólume, mesmo em época dominada pela tecnologia. "Pode ocorrer certa dificuldade para entender palavras em desuso, mas até isso é importante porque estimula a consulta ao dicionário", comenta. Só demonstra impaciência, quando lembra que a obra de Lobato correu risco, meses atrás, de ser banida das escolas em razão do tratamento "preconceituoso" à raça negra que aparece em certos trechos. "É uma grande bobagem ler as má-criações que a Emília fazia com a Tia Nastácia, em histórias escritas na década de 30, com os olhos de hoje", alerta. "O educador não deve alterar, mas sim explicar para a criança que fazer isso é inadmissível nos dias atuais." Exatamente o que o Conselho Nacional de Educação recomendou ao encerrar a discussão: o uso do bom senso pelo professor em sala de aula, contextualizando o que há de polêmico na obra de Monteiro Lobato.

Animais e a Peste

Monteiro Lobato

Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.

- Esta peste é um castigo do céu – respondeu o macaco – e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.

- Qual? – perguntou o leão.

- O mais carregado de crimes.

O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:

- Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o acrifício necessário ao bem comum.

A raposa adiantou-se e disse:

- Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão.

Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.

Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.

E o mesmo aconteceu com todas as outras feras.

Nisto chega a vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:

- A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário

Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:

- Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.

Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimamente eleito para o sacrifício.

Moral da Estória:

Aos poderosos, tudo se desculpa…

Aos miseráveis, nada se perdoa.

TDAH apresenta problemas de leitura?

Guiomar Albuquerque, (LAPEX - UFRJ)

Marcus Maia (LAPEX – UFRJ)

Aniela França (ACESIN - UFRJ)

RESUMO: Aplicamos uma seqüência de experimentos psicolingüísticos em um grupo de crianças e adolescentes portadores de TDAH e comparamos o seu desempenho ao de um grupo controle. Encontramos evidências de que o grupo TDAH apresenta lentidão no acesso lexical o que compromete a leitura, mesmo que não apresentem comprometimento funcional. Este resultado foi encontrado em todos os experimentos, com metodologias diferentes entre si, o que confere robustez aos achados.



Introdução

Albuquerque (2008), em um experimento de Decisão Lexical com Input Visual aplicado num grupo de 27 crianças e adolescentes portadores de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), demonstrou que embora os voluntários portadores de TDAH decidam de maneira semelhante ao grupo controle (X2= 0.1977, p=1,0000), eles precisam de tempo significativamente maior para chegar ao mesmo resultado que o grupo controle (t=6.333, p < 0.0001). Em um segundo experimento em Albuquerque (2008), utilizamos a tarefa de Leitura Auto-monitorada de Frases para distinguir os tempos de leitura dos tempos de decisão lexical em si dos mesmos dois grupos de voluntários. Novamente, apresentam-se diferenças entre os grupos nos tempos de acesso às representações mentais (t=2.808, p < 0,005), mas não nos índices de acertos (X2=1.559, p=0,2118), demonstrando, ao mesmo tempo, ausência de comprometimento funcional da leitura no portador de TDAH e presença de comprometimento no componente de acesso à faculdade da linguagem.

Com estes resultados estruturamos três experimentos a fim de caracterizar melhor o processamento da leitura nos portadores de TDAH: Leitura Auto-monitorada de palavras isoladas, Decisão Lexical com Input auditivo e Leitura Auto-monitorada no Processamento da Co-referência Inter-sentencial. Este último investiga a hipótese que demonstra a relação da memória operacional na reativação de um antecedente. É a chamada Hipótese da Carga Informacional (Informational Load Hypothesis), postulada por Almor (1996, 1999, 2000), que assegura que pronomes são processados mais rapidamente do que nomes repetidos na realização da co-referência. Isto se deve à carga informacional que essas formas lingüísticas contêm, visto que o tamanho da carga informacional varia de acordo com a distância semântica entre o elemento anafórico e o acesso ao seu antecedente. Em vista disso, nomes repetidos seriam menos eficientes, por terem mais traços semânticos a serem processados para identificar o seu respectivo antecedente, do que os pronomes, o que torna o processamento mais custoso em termos de memória operacional.

1. Leitura Auto-monitorada de Palavras Isoladas

Uma vez que houve diferença significativa nos tempos de leitura das palavras em frases entre os grupos, decidimos testar esta velocidade na ausência de contexto frasal. As mesmas palavras dos experimentos anteriores foram utilizadas, além da mesma amostra e condições experimentais a fim de proporcionar comparação mais precisa. A tarefa experimental consistia na leitura auto-monitorada de duas palavras, apresentadas separadamente, sendo que a primeira palavra era sempre o item alvo, seguida de uma decisão do tipo igual/diferente em relação à segunda palavra. Embora a literatura vigente descreva a ausência de problemas intrínsecos de leitura nos portadores de TDAH, os resultados dos experimentos anteriores parecem indicar a direção oposta. Assim sendo, a hipótese era de que novamente o grupo TDAH seria mais lento do que o controle e que erraria mais. Os resultados confirmaram a hipótese de que o grupo TDAH seria mais lento na leitura (t = 5.009, p = 0,0002), contudo não houve diferença no índice de acertos (X2 = 2,92; p = 0,087).

2. Decisão Lexical com input auditivo

O objetivo aqui era, da mesma forma que isolamos o tempo de leitura, isolar o tempo da decisão lexical em si e compará-lo entre os grupos. Replicamos o Experimento 1 com a única diferença de que os estímulos seriam apresentados auditivamente. Assim sendo, os materiais experimentais consistem das mesmas 48 palavras do Experimento 1, seguindo a mesma distribuição, ou seja, 24 palavras reais e 24 não-palavras. Os resultados foram extremamente semelhantes entre os dois grupos, tanto no que tange aos tempos de decisão lexical (t = 0.6760, p = 0,4991), quanto aos índices de acertos (X2 = 0,08; p = 0,76). As estatísticas demonstram que não há diferenças entre os grupos controle e TDAH nos tempos de decisão metalingüística, tampouco nos índices de acertos. Ou seja, ambos os grupos decidem da mesma forma e nos mesmos tempos médios. Todos os experimentos anteriores a este apresentaram evidências a favor da lentidão do processamento da leitura nos portadores de TDAH comparativamente ao grupo controle impossibilitando questionamentos. As evidências parecem indicar que a dificuldade do grupo TDAH seja específica da leitura. Isso justifica o desempenho do grupo TDAH neste teste, uma vez que o mesmo não requer leitura.

3. Leitura Auto-monitorada - processamento da co-referência

Este experimento foi elaborado para investigar o efeito da memória operacional verbal nos portadores de TDAH, uma vez que a literatura vigente refere que esta população apresenta déficit nesta memória. Tem como objetivos (i) verificar se há influência da memória operacional no processamento anafórico; (ii) testar a hipótese da carga informacional nos portadores de TDAH. Nossos resultados demonstraram que o grupo TDAH faz a co- referência tal qual o grupo Controle (Controle: X2 = 0,0499; p = 0,8; TDAH: X2 = 0,08702; p = 0,76). Houve diferença entre as médias de tempo de leitura da retomada com pronome lexical (PR) e a retomada com nome repetido (NR) em ambos os grupos. Encontramos uma diferença significativa em um teste-T (t = 5.940, p < 0,0001) no tempo de leitura da retomada PR e NR no grupo controle, ou seja, pronomes foram lidos mais rapidamente do que nomes repetidos. No grupo com TDAH ocorreu exatamente o inverso. Nesse grupo os NR foram lidos significativamente mais rápido do que os PR: p < 0,0001 em um teste-T (t = 2.474). Tais resultados corroboram a Hipótese da Carga Informacional, pois os traços do PR não são capazes de reativar o antecedente tão rapidamente no grupo com TDAH, demonstrando a dificuldade desse grupo na realização da co-referência com o uso do PR.

Discussão e Conclusão

Os testes descritos detectaram diferenças sub-clínicas no processamento da leitura dos portadores de TDAH estudados, comparativamente ao grupo controle, demonstrando que sujeitos com TDAH não apresentam problemas no módulo de representação, mas sim no de acesso da faculdade de linguagem. Os resultados encontrados confirmam as hipóteses levantadas neste estudo e demonstram que a medida do tempo de reação para o reconhecimento de palavras pode auxiliar na detecção mais segura de problemas de linguagem. Cabe lembrar que os resultados foram encontrados em todos os experimentos aplicados, com metodologias diferentes entre si, o que confere mais robustez aos nossos achados. Mostramos, também, que os portadores de TDAH apresentam interferência de falhas da memória operacional no processamento lingüístico, o qual realmente é mais lento nos portadores de TDAH do que nos sujeitos sem o transtorno. Novos passos devem ser dados a fim de dar continuidade ao estudo iniciado aqui.





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